Vou partilhar aqui um texto do Quintino Aires, que gostei muito. Regra geral concordo com muito do que ele diz, embora haja alguns assuntos que discordo.
"A necessidade de amar e a urgência de uma paixão amorosa são
presenças obrigatórias na vida das pessoas. Alguns podem achar que viver sem um
amor é algo que não os afecta, mas a verdade é que quase sempre, de uma forma
mais ou menos consciente, as ideias de uma paixão, da possibilidade de viver um
amor, marcam presença na vida de todas as pessoas, mesmo que muitas vezes essa
presença seja vivida em segredo.
Claro que as primeiras hipóteses são dirigidas àqueles com
quem mais se convive. Naturalmente, pois precisamos apreciar alguma coisa na
pessoa por quem nos apaixonamos, e pelo convívio sempre descobrimos uma ou
outra característica que nos deixa a pensar nessa pessoa de uma outra forma.
Muitas vezes não é um verdadeiro amor, nem mesmo uma paixão,
mas o vazio de emoções, de envolvimentos emocionais significativos, que
confunde na nossa cabeça os sentimentos, e muitas vezes um simples carinho, em
conjunto com uma falta de amor erótico já há muito tempo acumulada, leva a
interpretar aquele sentimento como se de uma paixão se tratasse. Naturalmente
que um amigo mais próximo é sempre o principal candidato a uma destas
“paixões”.
Por vezes são verdadeiros amores platónicos vividos em
segredo; outras vezes, e para conveniência dos dois, decidem partilhar uma amizade
com algo mais, uma amizade colorida, que se bem conversada pelos dois e muito
clara na cabeça de um, para o outro já se transformou em paixão. Se são dois
amigos é natural que muitas horas sejam passadas em conjunto e que muitas
realidades das suas vidas sejam partilhadas. O problema começa quando um nem
sempre está disponível, ou, pior ainda, quando começa a interessar-se por uma
terceira pessoa. Claro que não é simples que um sentimento se transforme
noutro, e dificilmente uma amizade se transforma numa paixão. Mas se a confusão
na cabeça de um, ou mesmo dos dois, já não permite distinguir a carência de um
amor de uma verdadeira paixão, o mais certo é que as confusões comecem.
Uma coisa é certa, de todas as opções que pode tomar, a pior
é realmente nunca falar com ele sobre aquilo que sente, porque se a amizade for
verdadeira, mesmo que os sentimentos dele por si não sejam idênticos aos seus,
ele saberá perceber o que está a acontecer e lidará com o assunto com
maturidade e diálogo. Se a sua intenção é sondar, antes de se atirar de cabeça
numa revelação bombástica, siga estas dicas fabulosas de sedução.
Com o tempo o mais certo é que nem paixão nem amor, e nem
mesmo amizade. Já se conhecem demasiado bem um ao outro para que o período de
paixão, que é sempre um envolvimento com alguma fantasia, possa ser vivido
pelos dois. Conhecem-se o bastante para permitir que uma ou outra mentira, com
a intensão de sedução, possa ser bem aceite pela outra pessoa. Poderia ser
conveniente, e muito prático, pois este tempo em que estamos já todos bastante
conscientes de que as pessoas têm geralmente feitios complicados, um tempo em
que a falta de tempo faz pouco prático o tempo gasto na aventura de conhecer
novas pessoas.
Uma paixão por alguém que já se conhece parece realmente a
solução ideal. Tudo parece perfeito, até que se começam a viver essa paixão na
prática. Cada um conhece demasiado bem o outro e é tentado a fazer algum jogo
de controlo sobre o outro, pois na paixão e no amor sempre desejamos poder
controlar. Dá-nos alguma segurança. Mas claro que o outro lado também conhece
bem o que passa pela cabeça dos dois, não gosta, e começam as primeiras
irritações. E no final, nem paixão nem amizade, apenas o arrependimento. E a
convicção de que o melhor mesmo é passar mais alguns anos sem arriscar o amor."